24.7.18

Só depois de alguns anos é que se tornou possível escutar todas estas gravações. Estavam guardadas numa caixa junto a muitas outras coisas (cartazes, fotografias, pequenos panfletos) e a vontade de escutar por curiosidade esbarrava sempre nalguma coisa menos agradável de ouvir, um erro, um mau som, uma música mal tocada, que no fundo serviam como desculpa para não mergulhar num mar de emoções, boas e más, que inevitavelmente nos transportam para momentos difusos, episódios entregues a uma memória já desvanecida. Foram também precisos muitos anos para conseguir aceitar as coisas como elas são, diferentes caminhos, diferentes ideias, diferentes formas de olhar para toda uma obra que ficou perdida no éter numa época de transição. Daí o facto de nunca ter conseguido esquecer muitas músicas que nunca ficaram gravadas em estúdio e de as ter tido sempre a gravitar num plano imaginário. Foi um fim algo abrupto. Muitas coisas ficaram por fazer. Mas o tempo cumpriu a sua tarefa.
Há meses que ando nisto. Tenho comigo uma série de gravações em MiniDisc já copiadas, editadas e masterizadas - muitos concertos, alguns ensaios - e não consigo encontrar a voz certa para escrever sobre elas. Não tenho de o fazer, posso simplesmente ir publicando sem dizer nada, mas assim que acabei de editar alguns concertos fiquei com uma sensação estranha de ter de dar algum contexto às coisas e deixar alguma coisa documentada por escrito. Criei este blog e deixei-o vazio durante meses. Quer dizer, de vez em quando escrevia alguns parágrafos que depressa apagava. É difícil escrever sobre coisas que nos estão muito próximas e agarradas à pele. Queremos escrever num tom imparcial, mas à segunda frase tudo soa demasiado artificial. E há também um paradoxo de ideias e de sentimentos: por um lado, não há muito a dizer de algo que já não faz muito sentido falar no presente (e para o futuro); mas por outro lado há uma necessidade quase existencial de querer fazer perdurar tudo isto através da ideia de um documento escrito, num acto derradeiro de marcar a obra no espaço e no seu tempo. Acrescente-se ainda que o tempo para escrever não é muito. Pelo menos, o tempo para escrever com o ritmo e a respiração certa. No fundo, coisas bem escritas. Daí o ter de escrever isto aos solavancos, sem pensar muito, curtos parágrafos com os botões de um telemóvel, enviados directamente para a web em formato rascunho. Não existe outra forma. Assim sendo, vou tentar escrever coisas esporádicas: apontamentos, curiosidades, análises de músicas, episódios, ideias revividas ao olhar para uma fotografia. No fundo, uma espécie de diário, um blog de desassossego sem narrativa.